Skip to content

Festa Punk – Parte II: Punk de Boutique

12 abril, 2010

Pouco mais de três décadas após o início da baderna desencadeada pelos garotos de Londres, à luz dos fatos e da história, é inevitável a discussão a respeito de como os preceitos do punk vêm sendo encarados na sociedade contemporânea – tanto por aqueles que têm a missão de levar à frente os seus conceitos, como pelo establishment de um modo geral.

Uma das críticas recorrentes ao movimento – mas não só a ele – é que suas bravatas já foram completamente assimiladas pela onipresente industria cultural, transformando o punk em mais um dos subprodutos do capitalismo. Em outras palavras, a anarquia virou mercadoria.

Vivienne Westwood SEX

Um livro lançado, cujo título é bastante sugestivo e irônico – The Rebel Sell [algo como A Rebeldia Fajuta ] –, defende que em vez de funcionar como força de oposição à economia de mercado, a contracultura é, nada mais nada menos, seu combustível.

Segundo os filósofos canadenses Andrews Potter e Joseph Heath, autores do livro, os símbolos da rebeldia não são apenas cooptados pelo mainstream , mas é a própria contracultura que impulsiona o crescimento do capitalismo, gerando competição entre os consumidores das novas bricolagens e adereços.

Daí surgem os conceitos de “hippie chique” e “punk de boutique”. Nesse sentido, a imagem de Ernesto “Che” Guevara estampada em camisetas, broches e jaquetas, é um dos exemplos mais fáceis. A moda do piercing , antecipada pelos grossos alfinetes que os garotos ingleses enfiavam em seus narizes é outro caso exemplar.

fachada da SEX: quando 0 punk tinha uma boutique própria


A estética punk, vislumbrada por Vivienne Westwood, foi tão bem sucedida que lhe rendeu a alcunha de Rainha Punk. A linguagem de suas roupas, escandalosa para as pessoas que viviam nos anos 70, é totalmente aceita na sociedade de hoje, permanecendo viva na moda de estilistas famosos como Jean-Paul Gaultier. As calças baixas e rasgadas, os adereços de metal e os tênis All Star – imortalizados por figuras como Joey Ramone – estão em todas as partes, vendidos inclusive em butiques famosas e em shoppings.

Daí pode-se concluir que a linha divisória entre a contracultura e a cultura de massa é bastante tênue. Em geral, o que está na moda hoje é o que foi alternativo ontem. Tal processo de transformação, do cult para o mainstream , segundo os filósofos canadenses autores de The Rebel Sell , é impulsionado pelos próprios atores que constituem o “sistema”. Funciona mais ou menos assim: quando as pessoas começam a imitar o estilo de um ícone rebelde, o rebelado precisa encontrar outra forma de se rebelar, já que o seu antigo costume não é mais singular. Portanto, sempre que um comportamento rebelde é popularizado, ele se torna inútil como forma de expressão, pois virou mainstream . Então é necessário criar outro meio de diferenciação, de ser diferente e cool .

A idéia parece radical, mas faz bastante sentido quando a análise é direcionada à cena musical independente de rock. É bastante comum se ouvir que dado grupo “se vendeu” para o sistema porque assinou contrato com uma grande gravadora – uma major na linguagem da indústria fonográfica. A partir do momento que uma banda do underground passa a fazer sucesso fora dos domínios do meio independente – clubes e lojas de discos –, ela já não é mais “pura”, autêntica e, principalmente, rebelde.

O próprio Sex Pistols provou do veneno maniqueísta do underground ao ser repudiado pelos fãs quando se reuniu para fazer uma turnê assumidamente caça-níquel chamada “A excursão do lucro imundo”. Caso parecido ocorreu com o The Clash, quando teve um de seus hits usados como fundo musical para um comercial da marca Levi’s.

Mas ainda que o punk tenha sucumbido em seus próprios desígnios e conceitos, é fato que sua influência ainda é bastante presente. Na música, após o final dos anos 70, uma leva de boas bandas surgiu aproveitando o que de melhor os rapazes de cabelos espetados tinham feito. The Cure, Echo and the Bunnymem e Joy Division adicionaram uma dose de desesperança e alguns acordes ao som básico de seus predecessores, inaugurando a Era Pós-punk, que se caracterizou como uma tentativa de organizar margens alternativas de produção e divulgação da musica pop. É fato que depois disto o gênero se desdobrou em mil segmentos e perdeu a veia pulsante dos primeiros anos.

Já em outras esferas da cultura, ainda que velado, “o faça você mesmo” está bastante presente hoje. Pode ser percebido, por exemplo, no modo de confecção de discos desprendido por músicos independentes. Aliados à tecnologia, grupos desconhecidos não precisam mais esperar por um contrato com uma gravadora para terem suas criações registradas. A popularização dos meios de produção fonográfica endossou e tornou novamente em voga o preceito mais conhecido do movimento punk – não espere pelos outros, grave você mesmo seu som. Artistas assumindo o controle de sua própria arte – desde a escolha do repertório e tipo de som até o modo de divulgação – não é mais um sonho utópico e distante. Há ainda a cibercultura punk, espécie de cruzada contra o monopólio das grandes redes de informática. Neste ramo, a troca de músicas pela Internet talvez seja um dos exemplos mais emblemáticos.

Porém, é preciso admitir que o punk, desde seu nascedouro, sempre foi um movimento despretensioso. Foi meio sem querer que um maluco chamado Malcolm McLaren achou um grupo de rapazes mais maluco ainda e formou uma banda que tinha tudo para dar errado – e não deu. Seu alastramento mundo afora foi um processo natural que, pouco a pouco, tomou corpo. E foi exatamente a falta de “objetivos claros” que fez o punk chegar aos mais remotos lugares do planeta. Foi justamente através da forma anárquica de organização que o movimento se organizou e deixou rastros em áreas que vão da previsível moda à era digital.

REBINSKI, Luiz Junior. O COMEÇO DO FIM DO MUNDO
Disponível em: http://www.rabisco.com.br
imagens: reprodução
Anúncios
4 Comentários leave one →
  1. 12 abril, 2010 10:57 am

    links to you in other language – only SEX is universal (all languages)!

  2. 20 abril, 2010 3:00 am

    Passei pra fazer uma visita e falar que meu blog está de endereço novo:
    http://www.blogdasmeninas.com

    Aguardo vcs lá!!
    Beijos

  3. 22 abril, 2010 8:32 pm

    Adorei o blog e ainda mais sobre o post punk!
    Tenho uma marca infantil, com certeza vc vai gostar!
    Temos estampas do Sex Pistols em bodies
    uma graçaaa!
    dá uma olhada
    http://lenfantdurock.wordpress.com/
    Mil beijos

Trackbacks

  1. God save the king! - C&A

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: